O papel social é a função que exercemos em um dado momento e contexto. No cotidiano, cada indivíduo chega a exercer inúmeros papéis sociais como pais e filhos, professores e alunos, jovens e velhos, somando, ao longo da vida, uma enorme quantidade de papéis sociais.
A função de cada indivíduo em sociedade (no que consiste um dos objetos de estudo da sociologia) interage necessariamente com outros papéis sociais de forma a constituir uma teia de indivíduos, cada qual contribuindo para a manutenção e desenvolvimento do todo. Dessa forma, no intuito de ilustrarmos essa interação entre os papéis sociais, podemos traçar um paralelo com o conceito de solidariedade orgânica do pensador Émile Durkheim. Na verdade, Durkheim não se referia exatamente aos papéis sociais como estamos abordando o termo, mas às especializações desses papéis profissionalmente, de uma forma tal, que a interdependência se torna condição básica para a coesão social; ou seja, aplicando esse conceito em nossa abordagem, temos: para que existam filhos, precisamos de pais; para alunos, professores; para jovens, idosos, o que significa que para a existência da cada papel social, há a necessidade da existência de outros que dêem sentido ao primeiro.
A compreensão do que é o papel social, assim como o estudo das ciências sociais, é importante para ampliar nossa visão da sociedade e nos distanciarmos de juízos com interferências de conceitos pré-estabelecidos. Não se tem a noção exata do quanto às imposições da natureza e do meio em que crescemos interferem nas nossas decisões. O papel social é, na maioria dos casos, fruto de uma escolha, sendo que esta pode ter sido feita a favor do meio social ou não. Por exemplo, nascemos homens ou mulheres, mas hoje já se tem a possibilidade, e até certo apoio, àqueles que desejam mudar de sexo. Sexualidade, portanto, consiste numa opção, e nem sempre numa imposição natural. O mesmo acontece com as convicções políticas e religiosas nas quais nascemos, visto que também temos o livre-arbítrio para decidirmos por outras concepções políticas e idéias de verdade.
Por outro lado, o que dificulta o entendimento do papel social são exemplos como o citado no livro de Hannah Arendt onde o personagem Eichmann capturado na Argentina por crimes cometidos no passado (incluindo genocídio) alega não ter cometido crime algum, pois estava apenas cumprindo sua função de funcionário público. A questão a que nos leva esse exemplo é: será que o papel social é SEMPRE uma questão de escolha? Ou, será que as ideologias podem servir de desculpa para cometer atrocidades como as de Eichmann ?
Para entender melhor o problema em torno do caso de Eichmann, é interessante entender a diferença entre liberdade e livre-arbítrio. No primeiro caso, temos algo que é exterior ao indivíduo, isto é, não depende somente do indivíduo. No caso de Eichmann, ele não poderia descumprir sua função visto que estaria sob ordens que no caso de insubordinação poderiam acarretar prejuízos a ele próprio. Não obstante, a definição de livre-arbítrio (conceito de Santo Agostinho) consiste em algo que vai de dentro para fora, ou seja, os indivíduos são colocados num grande dilema, pois tem o livre-arbítrio, dizendo que podem agir como bem entendem, mas sabem que terão que sofrer as conseqüências, pois não são efetivamente livres. Sob a luz desses conceitos, será que podemos julgar a atitude de Eichmann ?
Também se pode afirmar que as escolhas podem ser conscientes ou inconscientes. Mas a verdade é que como integrantes de um meio social, e dependentes desse sistema, estamos de tal maneira sujeitos às influências externas que nenhuma concepção nossa pode ser entendida como totalmente consciente, totalmente alheia a esses conceitos pré-estabelecidos. Nossas decisões, portanto, são conscientes e inconscientes concomitantemente.
